segunda-feira, 29 de junho de 2009

O Choro Da Vela


Enquanto o relógio tilintava pela casa o vento permanecia forte e constante do lado de fora no mesmo instante em que balançava as folhas das árvores que caíam com mais freqüência naquela época de outono.

O tempo estava frio e as nuvens começavam a fechar o céu, encobrindo as estrelas.

Alguns carros e pedestres ainda transitavam pelas ruas do bairro. Muitos estavam voltando da noitada enquanto que outros chegavam em casa após um longo e estressante dia de trabalho.

Cães e gatos disputavam as sobras de comida em algumas latas de lixo. Era a fome! E nessas horas qualquer coisa mastigável tornava-se um belo banquete.

Um dos animais rosnou. Estava com um pequeno osso de galinha entre os dentes. Seu corpo era magro e esquelético devido aos maus tratos que a vida lhe reservou. Coisa comum em animais órfãos.

De repente um mendigo aproximou-se. Ele também estava faminto e suas pernas já tinham dificuldades para sustentar o peso do próprio corpo. Tinha uma aparência sofrida, onde a expressão centenária prevalecia estampada no rosto enrugado e na longa barba branca. Com um galho de árvore seco, ele improvisou uma bengala.

—Ai, meu Deus! Que fome! —disse o homem já sem forças.

Aproximou-se do lixo e procurou algo que o ajudasse a tapar o estômago.

Um cachorro rosnou.

Apesar do medo, sua fome falava mais alto no mesmo instante em que seu corpo ignorava o perigo.

—Calma, amiguinho! Eu também estou com fome. —disse o mendigo ao animal enfurecido.

Tentou pegar novamente a sobra de comida. Dessa vez aproximou-se mais lentamente. Virou-se para o lado, disfarçou o olhar e, num gesto rápido, pegou o pedaço de carne apodrecida, rasgando-a com seus dentes fracos em seguida. Não importava se os vermes se mexiam. Com certeza, para ele, era até mais nutritivo, pois fortaleceria seu cardápio que há muito tempo carecia de proteínas. Além disso, a falta de higiene havia se tornado apenas um detalhe naquela vida miserável e sem futuro.

As horas passaram!

Algum tempo depois o senhor centenário percebeu que havia feito amizade com os animais. Cães e gatos, ratos e baratas, acompanhados de vários outros seres asquerosos rondavam, agora, seus pés. O mau-cheiro era insuportável. Mas como seu olfato já não funcionava como antigamente, ele não conseguia perceber o nível de miséria em que se encontrava.

Alguns passos à frente ele encontra uma casa abandonada. No seu interior, habitado por ratos, pombos, pulgas, aranhas e baratas, ele planejava encontrar o tão desejado descanso e paz. Então, aproximou-se e entrou pela porta da frente, completamente podre de cupins.

O ruído das dobradiças ecoou como música para seus ouvidos. Sentiu que havia encontrado um lar e estava disposto a permanecer naquele local o maior tempo possível. Afinal, ele não tinha moradia, mas sim o céu como teto, o chão como colchão e o meio-fio da calçada como travesseiro.

As sombras criadas pelos raios do luar que penetravam pelas janelas não o assustava. Pelo contrário! Transmitiam-lhe a paz que faltava em seu coração já tão massacrado pelo mundo.

Alguns passos à frente ele vê uma mesa. Sobre ela estava um copo de café frio. Aproximou-se, então, acompanhado pelos ruídos do assoalho.

—Será que tem alguém morando aqui? —interrogou ele a si mesmo.

De repente algo lhe chamou a atenção!

—Não é possível! Como alguém iria fazer café se aqui não tem nem um fogão?

—Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh!!! —um grito desesperado de dor ecoou pela casa.

Seu coração disparou. Arregalou os olhos, preocupado. Virou para os lados e tentou encontrar a porta de saída. Ela havia desaparecido. Então começou a correr pelos cômodos desesperadamente, acompanhado de gritos cada vez mais alto, forte e agonizante, além de ruídos estranhos e assustadores. Então um forte vento soprou perto do mendigo levando consigo todo aquele terror. O silêncio agora era total, acompanhado de uma enorme escuridão.

O coração palpitante do mendigo acelerou cada vez mais. Desesperado, como não sabia o que estava acontecendo, começou a rezar.

De repente surgiu uma forte luz no teto. Sua intensidade ofuscou os olhos do velho senhor que, nesse momento, começava a ficar curioso. No instante seguinte percebeu um vento gelado passar por seu pescoço e seus ombros. Quando fixou os olhos novamente na luz viu que essa se tornou uma inofensiva vela que, agora, flutuava em sua frente. Apesar de assustado ele tentou compreender o que estava acontecendo, pois era a primeira vez que presenciava um fenômeno sobrenatural. Obviamente isso fez com que sua curiosidade aumentasse cada vez mais.

Num movimento suave, a vela aproximou-se da mesa onde estava o café frio. No instante seguinte o velho senhor percebeu que a xícara começou a exalar um perfume delicioso. Era o café que, agora, havia ficado gostoso e quentinho. Parecia um milagre que, por mais estranho que fosse, agradava cada vez mais ao velho senhor. Ele havia ficado maravilhado ao ver as coisas se materializando em sua frente: o café, o pão, uma cesta de frutas, a toalha bordada como as nuvens e um radinho sobre a mesa que começava a tocar músicas suaves. Então se sentou na cadeira diante daquele belo banquete e serviu-se com fartura.

Olhou para os lados e disse:

—Quem está aí? Apareça, por favor!

Nenhum som. Os gritos haviam desaparecido. E, no seu lugar, apenas o vento e os objetos podiam interagir com ele agora. Como estava muito cansado decidiu parar de falar e saboreou o belo banquete e a boa música. Tudo era novidade e, como qualquer criança, sua felicidade estava completa.

Na medida em que recuperava as forças, seus pés começaram a acompanhar a música. Mexiam-se para cima e para baixo, seguindo o compasso. O ritmo era lento, mas o agradava. Depois uma música mais agitada começou a tocar. Era um jazz moderno. Então, como num passe de mágica, um belo sorriso estampou seus lábios. Os dentes apodrecidos e cheios de tártaro não diminuíam sua alegria. Seu coração palpitava, a respiração acelerava, o corpo ganhava forças e tudo isso no mesmo instante em que ele se levantou e começou a dançar. Era como se estivesse revivendo o que havia sido no passado.

Naquela época tudo havia sido mais fácil. Como foi herdeiro de uma bela fortuna nunca precisou trabalhar. Sempre teve quem fizesse tudo por ele. E esse foi seu grande problema, pois nunca aprendeu a se virar sozinho devido aos mimos errados na infância, adolescência e até na vida adulta. Talvez por esse motivo nunca tenha se casado. Tentou alguns relacionamentos que nunca deram certo devido a sua prepotência, resultando no afastamento das pessoas dele.

O tempo passou, a fortuna cessou e vieram as dificuldades. Foi aí que ele percebeu que estava sozinho no mundo e não teria mais ninguém para acudi-lo.

Inesperadamente o velho homem viu quando a vela flutuou da mesa e veio ao seu encontro. Parou diante dos seus olhos e, em seguida, flutuou pela sala mofada. Percebendo o que queria ele seguiu a luz, sem medo.

Na medida em que a vela flutuava pelos cômodos, ele pôde ver os detalhes das paredes, das maçanetas, do tapete velho, do lustre no corredor e dos quadros.

De repente a vela parou diante de uma das pinturas. Parecia que queria dizer alguma coisa ao velho senhor. Então, quando ele olhou para a obra, reconheceu imediatamente a imagem. Era o quadro de sua mãe. Isso fez com que uma enorme emoção tomasse seu coração, deixando-o sem palavras. Tocou o objeto no mesmo instante em que se desfaziam a poeira e as teias de aranha que encobriam a moldura. Uma lágrima solitária brotou dos seus olhos. Não teve como contê-la. Então percebeu que toda sua vida de luxúria e mordomias havia ficado no passado. Porém cabia a ele reconstruir seu presente e aproveitar o pouco que ainda lhe restava.

Olhando para os lados percebeu que aquela havia sido sua antiga casa. E o tempo, por mais moroso que fosse, não conseguiu apagar suas belas lembranças. Andando pelos cômodos ele começou a visualizar as pessoas que por ali passaram, os empregados, os animais, os antigos objetos e tantas outras coisas da qual nem sequer recordava.

A vela aproximou-se de uma porta próxima da escada de madeira que dava direção aos quartos. Ela era a passagem para o antigo porão. Lá seu pai gostava de guardar todas as ferramentas que eram usadas na manutenção da casa. Felizmente, pelo menos disso ele conseguia se recordar.

No instante seguinte a porta se abriu. Em seguida a vela entrou no cômodo escuro, úmido e fétido. Sem esperar mais o velho senhor seguiu-a sem medo. Percebeu o ruído dos degraus que rangiam sem cessar.

Era terrível ver em que estado se encontrava o que antes havia sido conservado com tanto amor e zelo.

Com passos minuciosos o senhor chegou ao final do porão. Lá reconheceu as velhas ferramentas do seu pai. Porém algo lhe chamou a atenção entre as sombras. Então decidiu, pela primeira vez, pegar a vela em suas mãos e iluminar o ambiente. Quando se aproximou um aperto no coração dominou seu interior, pois havia encontrado o cadáver de sua mãe. Sentiu um enorme desespero, acompanhado da tristeza que começou a iluminar sua memória. Afinal, depois de todos esses anos ele finalmente conseguiu reencontra-la, pois juraram para ele que ela havia viajado para o exterior em busca da cura de uma doença muito rara e da qual nunca soube do que se tratava.

Nas mãos do cadáver ele viu um pedaço de papel amassado preso entre os dedos. Esse foi o último gesto de coragem que sua mãe fez pelo filho. Então, não resistindo mais à sua curiosidade, pegou o manuscrito em suas mãos e começou a lê-lo.

“—Meu filho!
Se você está lendo isso agora é porque estou morta. Morta pela arrogância e ganância do seu pai em querer ficar com toda a fortuna da família. Mas sei que tudo deve ter dado errado para ele e você deve estar perto de mim agora. Então eu te peço, com todo o amor de minha alma, que me enterre dignamente no quintal de nossa casa, ao lado do corpo do seu avô e sua avó.
Não tenha medo, pois sempre amarei você.
Um beijo!
De sua eterna mãe,

Luzia.”

A partir daquele momento ele conseguiu compreender o porquê de tanta desgraça. Então, num gesto de amor, pegou cuidadosamente o corpo decomposto e mumificado e carregou-o pelos cômodos. Seguiu em direção ao quintal acompanhado pela vela flutuante que, nesse momento, aparecia erguida pela imagem de sua mãe, que estava feliz em ter reencontrado o verdadeiro e único amor de sua vida. O velho senhor não podia vê-la, mas sabia de sua presença. Por isso acalmou seu coração e se entregou de corpo e alma àquela que seria sua última obediência a sua matriarca. Uma obediência repleta de amor, respeito e admiração por alguém que sempre zelou por ele, mas que agora pedia um simples favor que lhe seria pago por toda a eternidade.

Fernando Magaldi
28/11 a 11/12/2008

10 comentários:

Catarina disse...

Olá Fernando!
Estive a ver alguns dos teus blogs. Gostei dos seus desenhos, estão muito criativos. Eu também desenho, mas é a carvão, se quiser ver tem http://anacat-930.blogspot.com/, vale a pena ;)
Continue

FERNANDO MAGALDI disse...

Muito obrigado, Catarina!
Seus desenhos estão muito maduros. Continue assim, pois você tem futuro. Mas o fato de ter tempo para produzir também ajuda muito. Aproveite essa fase de sua vida e não pare nunca.
Um abraço e volte sempre, ok?

Jess The Drama Queen disse...

amei seu blog...
:)

passa lá
http://newlegendsdramaqueen.blogspot.com/

FERNANDO MAGALDI disse...

Obrigado, Jess!
Seu blog está muito organizado e bonito. Nada de coisas poluindo e um foco principal no texto.
Continue assim!
Na medida do possível vou ler todas as histórias.
Um abraço e obrigado pela visita.

Anônimo disse...

Como sempre, muito, muito bom!
Priscilla

FERNANDO MAGALDI disse...

Oi, Priscilla! Estava sumida, hem?
Muito obrigado mais uma vez pela sua amizade e apoio.
Um abração pra você e toda a família.

Débora Sant'Ana disse...

Muito bom!

Histórias com detalhes. Permitem imaginar e sentir-se como o personagem!!

Talento- e sucesso Fernando!!

Te seguindo *-*

FERNANDO MAGALDI disse...

Muito obrigado, Débora!
Sempre que possível estarei postando novas histórias no blog que, no futuro, irá compor meu livro de contos.
Divulgue para seus amigos também. Vai me ajudar muito.
Um abraço e volte sempre.

luana disse...

parabens fernando li sua obra e adorei muito, vc e muito criativo espero le mais algum de suas historias, parabens td de bom para vc vou ficando por aki xau um grande beijo esperando novas historias...
luana..

FERNANDO MAGALDI disse...

Muito obrigado, Luana!
Sempre postarei novas histórias. Afinal, esse blog é uma prévia de meu primeiro livro de contos que lançarei em breve.
Demoro a publicar pois minha produção é lenta e cuidadosa. Gosto de lapidar as palavras e construir as cenas de uma forma simples, objetiva e de forma que o leitor se sinta no local da cena.
Um abraço, obrigado pela visita e pelo comentário!

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