terça-feira, 19 de agosto de 2008

A Última Chance

O que fazemos quando o Mundo nos maltrata? Aprendemos a dar o troco com a mesma moeda, não é assim? Pois bem! Só que não nos damos conta das conseqüências que esse mal nos traz. Poderíamos até dar um exemplo através da lei da Física: AÇÃO/REAÇÃO. Ou seja: TOMA LÁ, DÁ CÁ. Ou ainda: AQUI SE FAZ, AQUI SE PAGA.

Sabemos que muitas dessas situações nos são passadas em nossa própria criação, mesmo que sem maldade, para que possamos nos defender. Ou também através do mundo exterior com amizades inadequadas e pelos meios de comunicação (TV, Cinema, Internet, etc.), onde encontramos um farto material apelativo e vingativo.

O tempo vai passando e começam a surgir os filhos desse meio.

Um rapaz que se encontrava desanimado, porém pensativo, caminhava lentamente em direção à sua casa. Ele tinha muitas dúvidas e medos. Medo do passado, presente e futuro. Insegurança nos estudos e em seu local de trabalho, onde sempre se sentia ameaçado por alguns colegas. Situação que o obrigava a se defender de uma forma que não concordava: ÁSPERA. Isso só aumentava seu remorso e uma terrível mágoa da humanidade.

Havia situações em que ele culpava Deus. Brigava. Porém esquecia de fazer sua parte, achando que tudo cairia do Céu sem sacrifícios.

Olhou para os lados sentindo a brisa do vento quente e poluído, os sons ruidosos dos automóveis e as vozes descompassadas das pessoas que beiravam as calçadas por onde ele andava. E era nesse ambiente urbano, influenciado por uns e outros, que ele ia escrevendo sua história.

Alguns passos à frente, após virar a esquina, ele vê uma senhora segurando o filho no colo. Ela o avistou de longe e, imediatamente, estendeu uma das mãos como que suplicando por misericórdia, e pediu sem remorso:

-Moço, você tem uns trocados pra eu “comprá” um leite pro meu filho? Já tem um mês que ele não bebe leite nem come direito...

O rapaz revoltado, mesmo sem saber porquê, responde:

-Sinto muito! Tô duro! Não recebi esse mês ainda.

Ela insistia:

-Pelo amor de Deus, moço. Dá uma ajudazinha...

Ele pára, olha para a senhora se agacha e diz baixinho:

-Deixe-me falar uma coisa! Se a senhora se esforçasse poderia arrumar um emprego e parar de ficar pedindo dinheiro aos outros. Isso é muito chato, sabia?

Logo após ele levanta, se despede com um seco “tchau” e vai para casa.

Enquanto se afastava uma lágrima começava a brotar dos olhos da senhora. Ela queria ter dado uma resposta, mas a baixa-estima, causada pela sua paralisia, a impediam de fazê-la levantar a voz e até mesmo seu próprio corpo.

Já era fim de tarde quando o rapaz finalmente chega em casa. Cumprimenta os pais rapidamente. Em seguida pega roupas limpas e uma toalha no seu quarto, seguindo direto para o banheiro. O suor o incomodava. Mas no momento em que aquela água morna e relaxante tocou seu corpo, começa a sentir um alívio. Era como se todo o peso do mundo estivesse saindo de suas costas e caindo em direção ao ralo.

Começou lavando a cabeça lentamente. Em seguida ensaboou seu rosto. O som das gotas de água em contato com o chão ecoava pelo banheiro, atingindo seu tímpanos como uma melodia. Mas, nesse instante, ele começa a sentir algo diferente. Uma sensação de calafrio tomou todo seu corpo. Ficou preocupado.

“-Que sensação estranha.” –pensou ele- “Nunca havia sentido isso...”

Continuou se ensaboando normalmente. Não devia ser nada de mais.

Inesperadamente ele começa a ouvir uns sons estranhos ecoando pelo banheiro. Porém, não tinha idéia de onde estariam vindo. Em seguida um cheiro de lodo e uma sensação de aspereza dominou seu corpo. Sentiu suas pernas adormecerem. Algo o puxava para baixo. Estava ficando amedrontado. Porém, mesmo assim, decidiu olhar. Não acreditou no que viu. Uma imensa cobra havia saído pelo ralo e estava se enroscando em suas pernas. Ficou mudo. Por mais que se esforçasse, sua voz não saía. Tentava gritar em vão. Era como se seu corpo estivesse anestesiado. Conseqüentemente começa a entrar em desespero. Começou a imaginar as coisas que havia feito até então. Quanta pessoa ajudou. Porém, quantas pessoas ele também havia maltratado. Tantas coisas poderiam ter sido diferentes em sua vida. Tantos planos e sonhos para concretizar... até o momento em que ele decidiu fechar os olhos e aceitar seu destino.

Um forte som de trovão ecoa pelo ar, acompanhado de um relâmpago. A luz do banheiro pisca. O rapaz assusta-se e decide abrir os olhos. Percebeu então que a enorme cobra e a sensação de calafrio havia desaparecido.

Confuso e sem saber o que fazer ele pensa:

“-Meu Deus! Que loucura! O que está acontecendo comigo?”

Ele sentiu na pele uma sensação de morte inexplicável. Percebeu que para morrer bastava estar vivo. Mas para viver ele precisaria aumentar sua fé, esperança, esforço e compaixão pelos outros. Algo que não se encontrava dentro dele há muito tempo. Que de nada adiantava ter tantas coisas se você não externalizasse sua gratidão pelo simples fato de, milagrosamente, ainda estar vivo.

Pena que ele percebeu isso tão tarde, pois, bem distante dali, jazia o corpo de uma senhora com uma criança chorando de fome e dor. A dor da vida e da perda de sua mãe desnutrida. Afinal, ela deixava de comer para dar ao filho, pois acreditava que pelo menos ele poderia encontrar uma alma caridosa que lhe estendesse a mão e desse o conforto que ela nunca havia tido: UMA CHANCE PARA VIVER.





Publicado originalmente na ANTOLOGIA DE CONTOS FANTÁSTICOS / volume 3

pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores / Maio de 2007

3 comentários:

Vulnavia Phibes disse...

Perfeito o conto...me identifiquei em vários sentidos...

Anônimo disse...

Tão dolorido...muito bom, amigo!
Priscilla

FERNANDO MAGALDI disse...

Obrigado, Priscilla. Infelizmente essa é a realidade que vejo todos os dias nas ruas.
Abração!

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